• NENÊ ALTRO

    Entrevistas 27/12/2005
    nene-altro

    Para encerrar o ano de 2005, recebemos via email uma entrevista feita com o Nenê Altro ápos um show no Volkana. Nenê é autor do livro "Os Funerais do Coelho

    CURTIU? COMPARTILHE:

    Para começar eu queria que você falasse um pouco sobre o lançamento do livro.

    Nenê Altro – Bom, ele se chama “Os Funerais do Coelho Branco”, foi lançado agora, em Dezembro de 2005 pela Edições Ideal e é meu primeiro livro.

    Você já tinha publicado algo antes?

    Nenê Altro – Só matérias em jornais, revistas e textos na net. Publicado como livro mesmo este é o primeiro trabalho.

    E do que se trata?

    Nenê Altro – É um livro bem despretensioso. É uma história em narrativa de primeira pessoa, meio ácida, meio cética… É mais uma conversa introspectiva do que um conto em si, na verdade.

    Mas é fictícia?

    Nenê Altro – Em partes sim, em partes não. Tem muita coisa que eu escrevi daquela maneira que você escreve se enxergando como um personagem sabe? Você acaba não tendo muito compromisso com a realidade e ficando mais a vontade assim. E por outro lado tem bastante de mim que eu joguei ali, principalmente do segundo semestre do ano passado, que foi quando praticamente escrevi tudo aquilo.

    Após uma primeira leitura eu achei bem doente (risos).

    Nenê Altro – Mas é pra ser doente (risos). Você não consegue enxergar o mundo de uma forma sã quando você está filtrando as coisas daquela maneira.

    Mas achei a narrativa bem magnética. Confesso que tem partes ali que eu não me situei bem, mas achei bem interessante. Você se inspira em algum outro escritor?

    Nenê Altro – Cara, eu leio bastante. Bastante mesmo. Então você acaba tendo muita influência de tudo que você lê e acaba fazendo uma salada com o que mais gosta. “Os Funerais” é uma coisa bem pessoal porque vem da mesma fonte de onde vem praticamente todas as letras do Dance of Days, só que de uma forma mais crua. Eu começo todas as letras daquela maneira, escrevendo uma sucessão de pensamentos que tem uma ordem lógica para mim, daí eu vou lapidando, colocando outras coisas mais pensadas e encaixando no que a música me passa. Já no livro é só a seqüência de pensamentos, bem mais crua, só que em forma de narrativa.

    Tem alguma relação com a música “Os Funerais do Coelho Branco” do Dance of Days?

    Nenê Altro – É o mesmo estado de espírito. Tanto que a música saiu de um texto enorme que posteriormente acabou gerando o primeiro capítulo do livro.

    E porque esse nome?

    Nenê Altro – O Coelho Branco pra mim significa esperança, bem naquele sentido Alice No País Das Maravilhas mesmo, de você seguir suas esperanças, curiosidades, etc… Os Funerais da Esperança (risos). A esperança é a única que morre. É essa a idéia.

    E você ainda pensa assim?

    Nenê Altro – Eu tenho momentos. Esse livro conseguiu registrar um desses momentos, um bem longo que eu vivi e, por incrível que pareça, eu gostei bastante do resultado final. Marca bem aquela época. Eu consigo ser uma pessoa legal, pra cima e alegre muitas vezes. Tem gente que fala que só me vê sorrindo (risos). Mas também tenho meus momentos daqueles… acho que todo mundo tem.

    E são apenas três capítulos mesmo?

    Nenê Altro – Quem sabe? (risos) Brincadeira. Bom, como eu te disse este é um livro muito, mas muito despretensioso mesmo. Eu aceitei editar porque primeiro, eu sempre gostei de escrever e queria me destravar desse tabu de não publicar o que escrevo e, segundo, porque o pessoal da Ideal concordou em me ajudar a organizar os dois outros capítulos de uma maneira que ficasse legal.

    Como assim organizar?

    Nenê Altro – Bom, você que leu o livro viu que são textos pequenos que seguem mais ou menos uma ordem e tem um certo elo entre si. O primeiro capítulo foi praticamente apenas revisado, pois eu já tinha publicado antes em meu diário online. Nunca pensei em fazer livro mesmo dele. Já quis publicar em estilo fanzine, mas nada além disso. Só que quando veio a proposta do livro apenas aquele capítulo não bastava e eu já não tinha a mesma “vibe” da época pra continuar a história hoje, então não seria autêntico. Eu sempre tive o vício de escrever umas coisas por aí e ir guardando nos bolsos, tipo guardanapos de bar, flyers de balada, coisas que depois eu usaria pra letras de música ou textos. Então dei pra Ideal todos os papéis que eu tinha anotado no período, mais os textos originais de meu bloco de notas que eu não havia publicado na net e mais todos os backups de meu diário online e meu fotolog. Com isso eles montaram toda estrutura do livro. Eu só revisei, dei um tapinha aqui, outro ali e aprovei.

    Legal. Mesmo achando meio doente (risos) eu achei bem fácil de ler. Deu pra ler rapidinho e já ter uma impressão da obra.

    Nenê Altro – Eu não acho que você pode medir o valor de uma obra artística, seja ela uma música, um livro ou uma pintura, da mesma maneira que você mede o valor de uma estrada. “A Alma do Homem Sob o Socialismo” do Wilde deve ter, sei lá, nem 80 páginas em corpo 10 e nem por isso deixa se ser “A Alma do Homem Sob o Socialismo”. Bem como “Desobediência Civil” do Thoreau que é um clássico de menos de 50 folhas (risos). Eu acho que a Ideal qualificou bem o trabalho quando disse que era mais “intenso que extenso” e, penso eu, como obra em si, é algo com começo, meio e fim e que não deixa espaço para continuações (risos). Tem que ser como é e ponto.

    Você sempre foi apontado como um dos melhores compositores da música independente, todo mundo aclama você por suas letras no Dance of Days e etc. Você acha que esse livro vai agradar ao público que gosta do seu trabalho no Dance of Days?

    Nenê Altro – Olha, eu espero que sim. É um trabalho bem sincero mas, como eu já disse, não foi algo com a pretensão de ser “a” obra prima ou algo do tipo. Eu nem quero uma responsabilidade dessas. Deixa isso pro Salinger (risos). É apenas algo que escrevi sem pensar se ia ficar pequeno, grande, simples ou complexo. É só o que tem que ser. Como uma música do Dance, por exemplo. A música é o que tem que ser. Sai como tem que sair. Se é simples é porque tem que ser simples, se sai mais cabeçuda é porque tem que ser assim também. A importância que tem pra mim é a dos “Funerais” ser uma obra que eu realmente gostei de assinar, uma obra que eu adorei em produto final e uma obra que marcou para mim um novo início, o que é algo que me seduz bastante. Já considero estes motivos suficientes para ser algo importante em minha vida.

    Qual sua parte preferida no livro?

    Nenê Altro – As fotos no final (risos). Brincando. É como eu disse, fica difícil você escolher uma parte que mais gosta em uma música, por exemplo. Ou você gosta dela ou não gosta. Eu acho que o livro tem passagens mais ácidas, essas me atraem hoje mais que as depressivas, mas sei que amanhã eu posso ver de outra forma. É difícil dizer. Estou bem satisfeito com o resultado em geral.

    Você aponta vários personagens no livro. São todos fictícios ou tem algo real neles também?

    Nenê Altro – Cara, como é uma narrativa em primeira pessoa muita gente pode pensar que é um livro em que sou 100% eu ali, mas não é. Como eu escrevo, é claro que tem partes de mim, mas é um personagem e ele interage com outros personagens. É claro que a gente sempre acaba escrevendo sobre coisas de nossa vida, principalmente por ser um livro com datas e locais específicos, por ter trechos do meu diário e do fotolog, mas tem muita coisa ali que é complemento. Não deixa de vir de mim como escritor mas é a vida do personagem. Sei que nem tem como eu ficar pedindo pras pessoas separarem isto porque nem eu consigo as vezes separar o escritor do personagem quando leio um livro, mas a verdade é que se tem uma parcela de realidade tem uma boa de ficção também. Fica melhor assim (risos).

    Carol Anne é real?

    Nenê Altro – Carol Anne não é nem uma pessoa (risos). Sério, não dá pra explicar dessa forma. É uma maneira minha de ver a coisa, a história e eu espero que cada um veja da sua maneira, senão não seria poesia, seria uma receita de bolo.

    Como eu disse, é doente (risos). Queria agradecer a você pelo tempo, parabenizar pelo show (Volkana 10/12/2005) e deixar espaço aberto para sua mensagem final.

    Nenê Altro – Queria agradecer vocês pelo espaço, a Ideal por ter acreditado em meu trabalho e a todos que me acompanham e que sabem que fazemos parte da mesma história. Obrigado a todo mundo que tem me acompanhado e nos vemos na estrada.

    Clique aqui para adquirir o livro “Os funerais do coelho branco”, de Nenê Altro.

    CURTIU? COMPARTILHE: