Ricardo Tibiu


1. Ricardo Tibiu é um Jornalista? Nos conte um pouco como você se meteu com a tal música underground…
Sim, jornalista formado, se é que isso queira dizer algo. Sou “especializado” no tal do underground ou independente, onde comecei nos anos 90. Nos 80, meu irmão me apresentou Ultraje, Paralamas, Camisa de Vênus etc, mais pro fim da década ele me mostrou um certo Guns N’Roses e estragou minha vida pra sempre. Ali eu soube que não me separaria da música jamais. Depois vieram Sepultura e o metal em geral; Ramones, Clash e o punk rock, o hardcore do Ratos de Porão e por aí vai, assim a vida já estragada não teve como ser recuperada.

2. Mas por estar envolvido com música, já ousou pegar no instrumento?
Meu instrumento hoje é o teclado… do computador! Mas já foi o baixo, acredite! Complementando a pergunta anterior, lá por 1993 montei uma banda, se chamava Badger, a intenção era soar como o Sepultura, fase “Arise”, mas por limitação o negócio ficou no Ramones, que depois virou hardcore. A gente fazia uns shows falidinhos, mas divertidos, gravamos uma demo que foi elogiada numa Rock Brigade com o Iron Maiden na capa (ah, vá!). A banda acabou, montei outras, uma até com o nome de uma música do Fun People, mas nessa época eu já fazia fanzine, fui conhecendo as bandas nacionais, e me satisfazia muito mais escrevendo que tocando. Receber demos e zines nos anos 90 era uma felicidade sem tamanho, hoje recebo links para download…

3. Quando vi o documentário “American Hardcore” pensei, “poxa será que daqui uns 20 anos vamos virar um documentário?”, se isso vir a acontecer você consegue imaginar um roteiro da história do hardcore? Bem resumidão, as principais pessoas, bandas, fatos… eu sei que você escreveria isso super bem!
Pô, seria lindo de verdade, né, e lançado pela Ideal (plim, plim)… Imagina algo como o que o Gastão fez com o punk dos anos 80, mas sobre o hardcore dos 90. Começaria pelo Ratos de Porão, assim já introduziria a década anterior e falaria da maior entidade do hardcore nacional. Depois viriam, Psychic Possessor, Garage Fuzz, Safari Hamburguers, Primal Therapy & Baixada Santista, Ação Direta, cOLD bEANS (quem não recebeu os flyers em papel pardo do Viegas?!) & ABC, Junta Tribo, “No Major Babes” 1 e 2, “Fun, Milk And Destroy”, “Flying Music For Flying People”, “Monday Isn’t A Bad Day At All”, “100trífuga”, “HC Scene” 1, 2 e 3 & coletâneas, Cesinha Lost, Pinheads, Kangaroos In Tilt, Nitrominds, Againe, Nenê Altro, Street Bulldogs, No Violence, Francesco Coppola, Urbania, Espaço Cultural na Pamplona, Alternative na Penha, Black Jack, shows na Vila Madalena, Donald de muleta na porta da Galeria vendendo fitinhas & Gritando HC, Dominatrix, Marcio Sno & zines, Verdurada (casinha, Belém, Luz, Jabaquara…), Dread Full, Mukeka di Rato (a minha predileta!), Blind Pigs, Hateen, TPM, CPM22, Hangar 110… Aliás, acho que o Hangar foi um divisor de águas em todos os sentidos!

4. Cara agora você está com seu Zine o “chiveta”, que também atua como um blog cheio de um humor sarcástico e bem atualizado com o que anda acontecendo por aí, você tem alguma meta a atingir com esse projeto ou ele é apenas um hobby (Wood)?
O chiveta nasceu em janeiro deste ano quando reencontrei minha velha máquina de escrever e cismei que tinha que fazer algo com ela. Dobrei um papel e comecei a escrever, mas a fita dela tava podre, se desfazendo; então só o que deu pra fazer foi numerá-lo. Depois de uma década sem ter um só meu e colaborando ininterruptamente para zines, resolvi voltar a fazer, a vantagem hoje, além de saber que não vou mudar o mundo, é contar com o talento da minha linda senhora. O chiveta é artesanal (mas não hippie!), aperiódico e tem cópias limitadas: 100 e a maioria entregue em mãos aos amigos ou mandada old schoolmente em carta social. A versão online nasceu justamente pra enfatizar nosso lado sarcástico, sem muito bom mocismo e isso já incomodou algumas pessoas sem senso de humor… A gente não assina os textos, tudo é feito praticamente em conjunto, tem muita coisa “ferina” que tá lá e sai da mente da minha doce old lady e nego acha que fui eu! A meta é que as multinacionais entrem em contato, assim nos venderemos por pouco, é sério temos que pagar o leitinho de soja das crianças!

5. Participo de um bolão que premiará quem descobrir a próxima tendência da música nacional, eu acredito no electro-punk-css-du-rolê e você? (rimou).
O cão falou que você rima bem! Acho que o grindcore é a tendência, Are You God? bombando na Gimenez cheio de gostosas de lingerie e closes ginecológicos, já pensou? Tudo é um ciclo, na música também, então logo algo se repetirá… Sabe quem poderia estourar? O avião do Fall Out Boy, putz um tempo atrás fiz essa piada com o blink-182 e olha o baterista virando churrasco aí, melhor parar…

6. 3 discos, 3 livros, e um quadro?
É tão mais fácil entrevistar que ser entrevistado! Sem ultrapassar o limite: “Appetite For Destruction”, do Guns, “Anesthesia” e “Arte(e) Of Romance”, ambos do Fun People. Esses não troco, agora livro é momento e atualmente: “Misto Quente” (Bukowski), “Carpinteiros, Levantem Bem Alto a Cumeeira” (Salinger) e qualquer coisa do Nelson Rodrigues. Quadro? Gosto da maioria das coisas que o Magoo faz, mas tem um que não sei o nome, que é demais, uma caveirinha segurando uma vela…

7. Você trabalha para a mega corporação Laja Records é verdade?
Trabalho, muito, muito mesmo! O meu patrão, o Senhor Fabio Mozine (nesse momento o entrevistado se ajoelha e faz uma reverência em direção à Vila Velha), é muito bonzinho, ele quase não me manda 20 e-mails por dia, que quase não são confusos… Em 1997, ele me mandava caixas pelo correio com camisetas do Mukeka e fitas K7 com FYP gravado, hoje ele me manda muito trabalho por e-mail… Tempos modernos…

8. O que colaborou mais radicalmente para o crescimento da música independente, o PROTOOLS ou a INTERNET?
Te respondo com outra pergunta: Rick Bonadio ou Ian MacKaye?

9. Dá para viver de música sem ser o vocalista de uma banda emo no Brasil?
Hoje acho que só a Ivete Sangalo e a Cláudia Leitte vivem de música no Brasil. Emo não é música, até foi um dia, mas hoje é comportamento, moda, sei lá não sou antropólogo. Tenho um zine de 1998 guardado que, quando perguntado se o Againe era emo, o Fusco diz que “emo é só mais um rótulo para agrupar um monte de bandas e vender mais fácil”. Hmmm deixa eu anotar aqui “ligar pro Fusco e pedir os números da Mega-Sena!”. Pronto, onde a gente tava?

10. Marx ou Nietzsche….?
Ah cara, Marx depois dos 30 é complicado, escolho Nietzsche pelo pessimismo, mau humor, (falsa) arrogância, Zaratustra e o pé no retorno… Ah não, esse é o Iron Maiden!

11. Você era do Clube, da musica do deadfish “bem vindo ao clube”…o que rolava no clubinho?
“Eu, Junim e a garrafa de conhaque”, essa é a letra de “Clube da Moca”, do Merda, bons tempos, ótimas pessoas, amigos até hoje, Mozine, Japonês, Paulista, Junim, mas com a garrafa de conhaque eu não falo mais!

Jogo rapidinho:
Adoro isso, tipo Marília Gabi Gabriela, né? Vamos lá!

Sunga ou bermuda?
Samba canção!

Barba ou gilete?
Barba na cara, lâmina de barbear no pulso!

São Paulo?
Faz frio em São Paulo e pra mim (nem sempre) tá tudo bom…

A literatura Beat?
Usuários de drogas pesadas!

Meu próximo passo é?
Tentar ganhar a vida com o chiveta e demais corporações envolvidas, são elas: Pato Verde, O Eterno Retorno Publi., UYI e por aí vai!

Como o mundo vai acabar?
Com um show do Paramore, transmitido pela MTV, patrocinado pela Coca-Cola e apresentado pelo Ronald McDonald, vai ser uma festa de arromba!

chiveta?
Sim, ironia, amor, jabalization promovendo os amigos, sensacionalismo barato, senso de humor (a vida já é tão cinza, gente!), sarcasmo, celebridades (falidas ou não), nudez gratuita e uma pitada de jornalismo maroto! O Lester Bangs e o Hunter Thompson morreram, sabia?!

Encerro com uma pergunta pra você, quem é o supergrupo do ano: Nove Mil Anjos ou Zander?