Mamelo Sound System

Mamelo Sound System


Rap punk afro-futurista
Da Paulicéia para o mundo, o grupo Mamelo Sound System teve seu estopim em 2000. De lá pra cá conquistou seu espaço depois de apresentações e lançamentos elogiados. Mas é de bem antes disso que a base do grupo era formada, inclusive fora do meio hip hop – caso de Rodrigo Brandão. Ex-VJ do Yo!, que apesar de ser um programa voltado à cultura hip hop, ganhou exposição no Brasil todo por ser transmitido pela MTV. Fomos trocar uma idéia com ele, falamos sobre esse trampo, vegetarianismo, Racionais, mercado fonográfico, funk carioca, rap e punk. Que aliás, segundo ele o MSS foi definido como “rap punk” por um medalhão da música brasileira. Leia e saiba quem foi e muito mais!

Revisão: Ricardo Tibiu (www.chiveta.wordpress.com)

Entrevista: Ricardo Tibiu & FelipEterno

Não faz muito tempo, o hip hop conquistou um espaço na grande mídia que não existia. Antes a imagem que passavam era completamente marginalizada, hoje, por exemplo, a Coca-Cola usa o rap em uma propaganda ou ainda a TV Cultura tem um programa como o Manos e Minas. A quê você acha que se deve essa abertura?

Quando uma forma de arte é forte demais pra ser ignorada, quando tem muita gente ligada naquilo, é inevitável que a coisa transborde do nicho original e toda a sociedade fique ciente da sua existência. A partir daí, vem os dois lados da moeda: tanto aqueles que buscam ajudar na propagação dessa arte (como o Manos e Minas), e também os que associam sua imagem em busca de popularidade – vide a Coca-Cola. Mas apesar da existência desses dois extremos que você exemplificou, o hip hop no Brasil ainda é marginalizado, a ponto de se tornar o único gênero musical a ser excluído na programação da Virada Cultural da capital em 2009.  

Através do camarada João Xavi fiquei sabendo que você é vegetariano. Você já abordou o tema em alguma letra? Quando e o quê te levou a escolher esse estilo de vida?

É verdade, faz uma década já, mas ainda não rolou de versar sobre isso, por enquanto… Depois de uma overdose bovina que me fez suar a tarde toda, resolvi dar um tempinho, pra expelir um pouco daquilo. Quando vi, mais de um mês já tinha se passado e nada d’eu sentir falta. Foi quando ouvi de muita gente que estava mais calmo, mais tranquilo que antes; aí decidi que já não era mais só por mim, mas também pelas pessoas que estão à minha volta, tá ligado? Se percebo que desse jeito sou um pouco menos monstro que antes, é por aí que vou seguir, na trilha da evolução. Não é à toa que me lanço de Wolverine do Verbo. 

O último lançamento do Mamelo Sound System é um compacto com o Elo da Corrente, conte-nos mais sobre o disco.

Na real é um single com uma faixa de cada grupo e uma terceira em parceria; mas em formato bolachão 12 polegadas. Por causa da cultura de DJ mesmo, a coisa de incluir além da versão oficial, a instrumental e as vozes a capella, em faixas separadas pra fazer colagens, beat jugglin’, ou pra outros MCs rimarem naquele mesmo beat. Muita gente não sabe, mas o rap nasceu na Jamaica, onde essa parada de remixar, de fazer versões, já existe há muitos e muitos anos.

Para um público não familiarizado com rap, qual seria a melhor definição para o som do Mamelo Sound System?

Hip-hop afro-futurista brasileiro. 

Você está envolvido diretamente com a organização do Indie Hip Hop, que hoje é um dos principais festivais do gênero no país. Nesses sete anos de evento, já rolaram clássicos como Afrika Bambaataa e contemporâneos como Talib Kweli. Qual o grau de dificuldade de fazer um tipo de festival assim no Brasil e como é fazer um trabalho alternativo ao que já existe dentro do mesmo segmento?

Pra ser exato, o Bambaataa a gente trouxe no Dulôco 99. O Indie Hip Hop começou em 2002, com Lyrics Born (Quannum) e o saudoso Sabotage como atrações principais. Nesse ciclo de sete anos, aconteceu um fenômeno inesperado: tanto as festas de playboy perderam interesse pelo rap comercial, quanto o rap nacional também reduziu muito seu público por conta da invasão do pancadão carioca na periferia de São Paulo. Então, todos os artistas que não se encaixavam em nenhuma das duas extremidades, aqueles que foram todos rotulados como “underground” ou “alternativo”, mesmo que, por exemplo, o som do De Leve seja muito, muito diferente do Kamau, se mantiveram em ascensão mais lenta, porém contínua. E essa é a rapaziada, na qual incluo também o Mamelo e outros como Elo Da Corrente, Contra-Fluxo, Rua De Baixo, a rapa do 360 Graus, Subsolo, entre vários mais que têm feito, cada qual à sua maneira, um trabalho ainda não devidamente reconhecido, que é o de conquistar um novo público, que antes nem ouvia rap algum e que agora curte o que esse pessoal vem fazendo. E o festival Indie Hip Hop é voltado justamente a toda essa gama de rap não-comercial, mas até comerciável. Então, claro que fazer um festival desse porte é Operação Davi-Golias sempre, mas até mesmo devido à ótima audiência (em quantidade e qualidade!), o evento, assim como o estilo ao qual se dedica, contrariou as expectativas e vem se estruturando, passo a passo, e crescendo ano após ano. Sabe aquele som clássico do Souls Of Mischief, “93 ‘Til Infinity”? Então, é tipo isso.

É fato que o mercado fonográfico está falindo, isso mundialmente. Ao mesmo tempo cresce o interesse pelo vinil, que nunca deixou de ser usado como um instumento no rap. Qual seria a solução para manter a música viva? Ou melhor, de manter o artista vivo, tendo seu talento e obra valorizados?

A música tá viva e assim há de continuar. Mas quanto ao artista, a coisa é mais preocupante! (risos). Essa pergunta que você me fez é a mesma que alguns milhões de músicos ao redor do mundo devem estar se fazendo agora mesmo! Mas no caso do MSS em específico, como a gente sempre foi excluído de toda e qualquer boiada desse tipo, te confesso que nunca teve tão bom quanto agora.

De um tempo pra cá os grupos e artistas de rap enfim perceberam que havia vida no rap nacional além do Racionais. Claro, eles são inegáveis ícones do estilo no Brasil, mas quero dizer que até pouco tempo havia mais gente os imitando que tentando fazer um som original e até espontâneo. Quando você acha que isso começou a acontecer e por quê?

Falo por mim quando digo isso, mas creio que vale pra muita gente: eu piro muito em Racionais, e o trabalho deles me influencia no sentido de buscar fazer música com tamanha intensidade, originalidade, e poder mesmo. Mas do meu jeito, com a minha cara, ao invés de tentar copiar as gírias, visual, a estética das bases, o formato do show deles. E do mesmo jeito q vários MCs e produtores sacaram isso e começaram a buscar outras referências, como Madlib e J. Dilla, o mesmo aconteceu com os ouvintes. Creio que o próprio Dulôco 99 foi um evento importante nesse processo, por ter sido o primeiro festival de cultura hip hop em seus quatro elementos, focado tanto na raiz do rap (Bambaataa, GrandMaster Flash), quanto no rap positivo (De La Soul, Common); e também por ter catapultado toda a primeira geração de rap a quebrar com os padrões estabelecidos. Mas isso foi um ponto, a coisa toda é maior, foi um processo de alguns anos, na virada do milênio, cuja lista de arquitetos inclui Black Alien & Speed, Academia Brasileira De Rimas, Inumanos, Mamelo Sound System, Rhima Rhara e Quinto Andar.

Qual sua visão em relação ao funk carioca como fenômeno de massa? Acha que ele saiu do morro pra tomar de assalto o país, quiçá o mundo? Qual sua relevância na cultura popular brasileira atual?

Eu acho bem louco o fenômeno do funk, a mais marginal das expressões do gueto carioca, uma forma musical primal, baseada no Miami Bass, no Planet Rock do Afrika Bambaataa & Soul Sonic Force, fazer todas as classes da sociedade brasileira rebolar! E a gringaiada, então? Vixi! A batida é selvagem, não tem como negar. Sou fã do Mr. Catra em especial. O simples fato de ter alterado num curto espaço de tempo a dinâmica, já alicerçada por algumas gerações de rap, das quebradas daqui é prova irrefutável da força do funk carioca.

Você vivencia de perto tanto o mercado/cenário hip hop quanto o punk, qual dos dois você considera mais produtivo?

Creio que ambos têm um espírito semelhante, de cultura de rua, de “faça você mesmo”, mas ao analisar a história é inegável que tudo no rap brasileiro é estruturalmente mais precário. Agora, no Mamelo Sound, não só eu, mas quase todo mundo, tem uma vivência importante no punk e no hip hop, tanto que o Guilherme Arantes, que é pai de uma amiga nossa, comentou que era um “rap punk”, quando ela mostrou nosso disco. Fiquei felizão que um músico cabuloso como ele tenha captado a atmosfera e curtido a nossa barulheira!

Você já foi o VJ do programa Yo!, da MTV, o programa era focado em toda a cultura hip hop. Como foi pra você toda essa experiência e já rolou alguma conversa do Yo! voltar à ativa?

Foi um período muito classe da minha existência aqui no Ayê, importante, pois foi ali que convivi com gente que havia mudado minha vida, como Racionais mesmo e Thaíde & DJ Hum, e que viria a mudar, como Chico Science & Nação Zumbi principalmente, mas do qual não guardo saudades. Gosto mais da minha vida agora, e nunca ouvi esse papo de volta do Yo!, seja comigo ou outro apresentador. Aliás, te digo que nem faz sentido mais, agora é outro tempo, a TV perdeu muita força com o advento da internet. A coisa de coordenar seu tempo pra estar na frente da telinha numa hora “x” perdeu razão de ser, qualquer um pode ver o clipe que quiser, na hora que quiser, no YouTube. Mas também devo assumir que essa perspectiva do hip hop enquanto cultura, que tenho até hoje, se firmou na minha mente ali. Se até hoje gosto de checar o Master Crews quando tenho chance, pra ver os b-boys em ação, ou se me pego na madruga parando o carro pra admirar um graffiti novo, isso tem a ver com o contato que passei a ter naquela época, com gente como Marcelinho Back Spin, King Nino Brown, Vitché e Os Gêmeos.

Perguntas e respostas rápidas:

Carlos Dias: Meu irmão de alma.

Black Alien: Gênio e professor.

Hurtmold: Talento em tonelada, irmandade, longevidade.

Ragga, dub ou dancehall: Todos.

Racionais: 400% dinamite!

São Paulo: Amor e ódio.

Punk/hardcore: Stooges, MC5, Ramones, Clash, Pistols, Dead Kennedys, Ratos De Porão, Bad Brains… é tudo nosso!

Links relacionados:

www2.uol.com.br/mamelo
www.myspace.com/mamelosoundsystem
www.tramavirtual.com.br/mamelo_sound_system