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Nene Altro fala sobre seu segundo livro
Entrevistas 15/08/2011
Batemos um papo com o vocalista mais emblemático do punk nacional para saber de suas novidades, e ainda conseguimos uma foto inédita e um trecho do seu novo livro.
Batemos um papo com Nene Altro, o vocalista mais emblemático do punk nacional, e ainda conseguimos uma foto inédita e um trecho do seu novo livro. Confira tudo abaixo!
IDEAL SHOP: Nenê, qual a maior diferença entre o primeiro livro “Os Funerais do Coelho Branco” e o “O Diabo Sempre Vem Pra Mais Um Drink”? NENE ALTRO: Ambos são bem semelhantes e representam fases difíceis que passei em minha vida. Se o primeiro foi o funeral poderia dizer que esse novo é o enterro. O primeiro escrevi todo no blog, foi um desabafo, e o processo desse novo livro foi mais ou menos o mesmo. São poesias, pensamentos, uma coisa que eu precisava publicar e enterrar mesmo para seguir adiante. Escrevi para mim, não para outras pessoas. Não tenho esse tipo de pretensão. Não sou poeta. Sou só um cara que tem necessidade de escrever. Faço isso nas músicas, nos textos e também nos livros. Comecei a escrever assim fazendo zines, tem textos pessoais nos meus zines nesse formato desde o Rosa Negra do final dos anos 80, ao Relief dos anos 90. Isso sem falar do zine Auto-Didata que eu fiz por volta de 1986 que tinha muitas, mas muitas poesias mesmo escritas dessa forma. Foi assim que aprendi a me expressar. Foi essa a maior contribuição do punk em minha vida.
E o que te animou montar sua própria editora?
Desde que entrevistei o Henry Rollins para o Jornal Antimidia fiquei com essa idéia fixa. Mas não tive condições antes devido a diversos conflitos pessoais que atravessava. Mas essa escola da Dischord, SST, sempre foi a minha. Tanto que a Teenager In a Box começou em 1997 e durou até a época do Lírios Aos Anjos, que foi mais ou menos onde comecei a me perder. Agora, seis anos depois, retorno do ponto exato de onde parei.
Se a sua vida fosse um livro, qual capítulo da sua história você pularia?
Se você me perguntasse uns três ou quatro meses atrás eu diria “as drogas”, sem pensar. Mas amadureci muito as reflexões frente a esse ponto de vista e sei que sempre fui uma pessoa muito intensa. Quando eu era sxe eu era super sxe. Quando era anarco-punk era o mais panfleteiro. Não era de se admirar que quando eu caísse nessa eu me afundasse de cabeça. Mas passou, tirei duras lições disso, como tirei de todas as vezes que errei e tentei até acertar. Se por um lado esse caminho todo me afastou do que eu gritava dentro do peito por anos por outro ele me trouxe a vida que tenho hoje, à minha paz, à essa praia, à minha floresta de Thoreau. Então não vejo mais tudo o que vivi como uma desgraça só. Tive bons intervalos, fiz boas músicas, percebi quem me queria bem mesmo… Tudo tem um lado bom.
Há planos de mais e mais livros? Como seriam?
Não quero mais fazer livros de poesias. Não nesse momento. Talvez um dia, mas não agora. Estou escrevendo um romance. Sem previsão para ficar pronto. Espero não parar, pois estou gostando muito do formato que está ficando. E, com essa produção toda do documentário do Dance of Days decidi pegar a fundo mesmo o trabalho de escrever a história da banda, de cada música e etc. Vai ser algo em que vou me dedicar também.
Qual o perfil dos leitores do seu livro?
São admiradores de meu trabalho. Na maioria fãs de Dance of Days que acompanham toda a minha história. E fico feliz que sejam eles. São os que mais me interessam mesmo, porque são os que mais entendem o sentido de tudo que escrevo. Geralmente quem não me acompanha não me entende e acaba me julgando isso ou aquilo. E esse tipo de gente que me julga ou compara eu quero mais é que se foda.
O que é mais difícil, fazer um livro ou um disco?Ambos são processos gratificantes e que trazem muita satisfação. Acho incrível o alcance da música por exemplo, e essa coisa toda de falar o que quiser e sem censura do punk rock. E eu tenho diversas necessidades diferentes. Com o Dance of Days é tudo muito unido sabe, é a voz de todo mundo ali na banda e não só na banda, em todo universo que envolve, a independência, o punk, o hardcore. Nos livros sou eu, meus momentos, minha necessidade de desabafar. E por exemplo, agora que o Nenê Altro & o Mal de Caim acabou mesmo eu sinto a necessidade de fazer algo solo, que seja uma coisa minha apenas e não tenha a ver com os músicos que tocam comigo. Amo o Dance of Days e JAMAIS abandonaria a banda, pois é a minha vida, mas tenho essa necessidade de falar das coisas que são pontos de vista só meus. Sempre tive essa paixão pelo pessoal. Pelo lado político do pessoal. E canalizo minha hiperatividade a todos esses tipos de arte.
O título do livro me deixou com a pulga atrás da orelha… Sinto que culpa o Diabo aos problemas que teve com alcoolismo e drogas, você acredita nisso?Não. Claro que não. Sou ateu. É apenas uma metáfora. O desenhista Felipe Moreno que fez as gravuras maravilhosas pro meu livro me desenhou na capa, sentado numa mesa, e a sombra que vem de mim é um diabo. É todo inferno que eu passava dentro de minha cabeça, não somente as drogas, mas a busca por estar bem, por estar em paz comigo.
Quem ler o livro vai…?
Ver que muita coisa que escrevo complementa as letras de minhas músicas e vai reconhecer cada fase que passei em algum ponto de minha arte. E, o mais importante, quem comprar o livro estará comprando um produto independente, ou seja, ajudando a cena independente a ter mais recursos para lançar mais coisas. Com o dinheiro do livro, por exemplo, vou lançar esse ano o DVD + CD do Dance of Days e viabilizar muitos outros projetos. As majors e grandes editoras já tem todo um universo de consumo para manterem seu império. Já a cena independente só tem a fidelidade dos que não enxergam tudo como simples produtos para consumo. Não basta consumir, tem que pensar. E pensar além.Leia agora um trecho exclusivo do livro “O Diabo Sempre Vem Pra Mais Um Drink”:
“Sem muita idéia.
Traz esse bicho aqui.
Traz ele vivo que eu quero comê-lo gritando.
Grudar meus dentes na jugular.
Arrancar as tripas com os dedos.
Me traz esse bicho agora.
Quero misturar a saliva de minha boca com seu sangue.
Quero que a sujeira de meus dentes infeccione sua alma.
Me traz esse demônio desgraçado.
Vou cortar as porras de suas pernas
Me deixa esmagar com as mãos, sentir explodir e escorrer pelos braços.
Preciso disso.
Me deixa acabar com ele.
Me deixa engolir e cuspir.
Deixa mostrar pra esse filho de uma puta quem manda aqui porra.
Deixa fazer sentir toda força desse vazio.
Todo desespero de um homem num ponto perdido dentro da casca de um corpo que navega a meia noite num barquinho no breu de um oceano sem fim.
Me traz esse bicho Amor.
Quero acabar com ele.
Quero parar a dor.”Gostou? Clique na capa do livro abaixo e garanta o seu exemplar, a venda na Ideal Shop: