O Clandestino de Nene Altro


É a terceira vez que o Nene Altro aparece com um livro por aqui. Dessa vez ele criou um romance, uma história que se passa no centro de São Paulo (seus 2 primeiros livros foram compilações de suas poesias).  O novo livro se chama “Clandestino”, e de cara dá pra ver que tem muito de Nene Altro e de Dance Of Days nessas linhas. Se identificou? Aproveita então pra ler a entrevista que o Xilip fez com o Nene, num clima de amigos de longa data, e saiba mais sobre esse novo projeto.

Xilip – Nenê, acabamos de receber os exemplares de seu novo livro aqui na IDEAL SHOP, o que pode nos dizer sobre ele?

Nenê Altro – É um livro bem importante pra mim, pois é o primeiro que não escrevo em forma de poesias. É um livro sucinto, como eu mesmo escrevi na nota de introdução, que já nasceu com a ideia de ser um pocket book. Há tempos eu vinha tentando começar algo assim, que fugisse do estilo dos dois livros anteriores e das letras do Dance of Days, mas sempre acabava desistindo. Então, quando comecei a escrever as letras para o ep “Na Estrada” do Dance of Days, agora em Julho/Agosto, ele saiu numa tacada só. Decidi me colocar a prova, lapidar e lançar algo modesto, mas que ainda assim servisse como um marco em minha carreira como escritor.

E qual a história do livro?

Então, ele surgiu enquanto eu escrevia a letra de “Clandestino” do Dance of Days. Conta a história de um ex-fanzineiro solitário, que mora no centro de São Paulo e que com seus trinta e poucos anos ainda não consegue encontrar seu lugar no mundo, ou se sentir bem. São nove capítulos contando uma pequena história, mas tentei manter a minha característica dos textos e zines nas narrativas, passeando até por algumas letras do Dance of Days que se encaixavam no contexto.

E ficou satisfeito? O que pretende escrever agora que abriu esse novo rumo?

Fiquei bem satisfeito sim, foram quase cem páginas escritas com euforia, o processo foi bem prazeroso e o resultado final me surpreendeu. Agora pretendo continuar escrevendo, talvez com mais folga, marcando ideias nos próximos meses, rabiscando diálogos e histórias. Mas antes disso eu pretendo lançar um livro com as primeiras entrevistas do Jornal Antimidia, contando via história oral a saga do punk em São Paulo. Entrevistei muitas bandas nesses primeiros números, Olho Seco, Ulster, Cólera, Ratos de Porão, Hino Mortal, Armagedom, então o jornal é um relato vivo de como essas bandas e a própria cena punk estava em São Paulo do final dos anos 90 a meados dos 2000.

E sua passagem aqui pelo ABC paulista, influenciou muito esse novo trabalho?

Sim, claro que sim, até porque influenciou em muito minha vida, então acabou atingindo tudo que faço, seja nos livros ou na música. O tempo que passei na Baixada Santista, antes de vir pra cá, também foi bem importante pra mim, pra repensar tudo, pra saber que começar do zero e revolucionar valores não eram apenas slogans de luta de classes, que era mais do que necessário pra mim aplicar isso na vida pessoal, destruir tudo de ruim pra depois construir com dignidade, pensar além. E dei sorte de, graças às raízes da Nicolle, minha esposa, vir parar aqui no subúrbio operário andreense, onde aprendi muita coisa, principalmente que a solidariedade ainda se pratica, e não necessariamente por prismas classistas, mas por afinidades individuais. E o melhor, vivenciar que as coisas aqui se resolvem no papo reto me ajudou muito. Se há uma coisa que eu devo à cultura do ABC paulista foi ter me ensinado que ninguém tem que ser amigo de todos. Acho que o que mais foi atingido por isso foi meu novo trabalho com o SEEK terror.

E aí, conta pra gente, como foi essa história da mudança de nome da banda?

Então, como você sabe, eu e o Marcelo Verardi fundamos o Sick Terror em 1999, mas eu já tinha algumas músicas encaminhadas desde o Bastard In Love em 1998, como Campos da Morte (que saiu no Tributo Ao Olho Seco) e Muletas. O Marcelo Verardi saiu do Sick Terror em 2002, pouco depois do Sandro Dias, e eu saí em 2005, mas nunca ficamos parados, no início de 2008 já tínhamos o Total Terror DK. Acreditamos que, com os dois membros fundadores fora, a banda teria acabado, mas não foi isso o que aconteceu e o Sick Terror seguiu com a proposta ideológica (pois todas as letras sempre foram pessoais minhas, ou seja, falavam da minha vida) e musical completamente diferente por mais alguns anos. Enfim, passados quase 10 anos de tudo isso resolvemos fazer um show de reunião no Hangar 110 em Janeiro desse ano, tocando só as musicas do Peste Católica e do Aborto legal, com os membros fundadores, eu e o Marcelo, e mais um membro original, o grande Sandro Dias, que fez a tour do Peste Católica e gravou o Aborto Legal. Quem nos acompanhou nesse show foi o amigo Fernando, que já havia tocado comigo pouco antes no Maldita Minoria. Alguns dias após o anúncio desse show, recebemos um comunicado via email informando que não poderíamos mais usar o nome da banda que criamos (e que eu batizei!) pois o antigo baixista o havia registrado em seu nome. Ligamos no escritório de patentes e confirmamos: Havia realmente sido registrado e não poderíamos mais usá-lo. Ficamos bem chateados, mas como não íamos perder tempo brigando com isso, até porque nem temos dinheiro pra essas coisas, mudamos temporariamente o nome pra Rich Terror e fizemos o show. E como também, graças ao hábito de escritor, sempre registro minhas músicas e letras na Biblioteca Nacional, decidimos após o show montar outra banda, com outra proposta, mas seguir tocando dessa época apenas os clássicos de nossa autoria integral. Afinal um nome é só um nome e tocamos esse tipo de som há tanto tempo que sempre poderemos fazer novos trabalhos. Com isso mudamos o nome pra SEEK terror e fizemos o álbum “Ódio e Resistência” em menos de dois meses de ensaios, entre Março e Abril de 2013, e já gravamos em Maio rsrsrs Essa é a história.

Ultimamente temos visto muito isso, de bandas punks brigando por direitos autorais, nomes, etc.

Sim, o próprio CRASS passou por isso. No nosso caso nós nem brigamos, deixamos pra lá, mudamos o nome e foda-se rsrsrs Valorizo muito tudo o que fiz em minha carreira musical, mas sempre tenho em foco o que ainda posso fazer. Até porque a proposta do SEEK Terror vai além do que fizemos antes no Sick, agora tem a parada crust que fazíamos, hardcore cru, mas tem bastante street punk, punk de rua. Mudar o nome acabou sendo até legal pra marcar essa nova fase do trabalho, como um novo começo mesmo.

E o Dance of Days, como está? Quais são as novidades da banda?

Bom, o Dance of Days sempre foi uma banda de estrada, de sair pra tocar. Isso tem até a ver com o nome desse novo ep. Desde meados do ano passado foi o que fizemos, pegamos muito a estrada e nos entrosamos bastante com uma guitarra só na formação. Agora no segundo semestre entramos pra gravar as quatro primeiras músicas de nosso novo trabalho. Vamos lançar uma sequência de quatro eps com quatro músicas cada, que formarão no final o nosso novo álbum, o maior de estúdio da história da banda, com dezesseis músicas. A experiência está sendo bem legal, pois ao passo que estaremos lançando esse primeiro ep no fim de Setembro no Hangar, já em Outubro estaremos gravando as quatro músicas do ep seguinte pra lançar em Dezembro e assim por diante. Eu particularmente estou curtindo muito tudo isso, pois adoro me manter em atividade.

No tempo que você ficou aqui você chegou a fazer um zine local em jornal, o Rock do ABC, o que aconteceu com ele?

Então Xilip, no início desse ano eu tive que repensar todo meu sistema de trabalho. Muita coisa mudou desde a época do Jornal Antimidia, algumas coisas seguem as mesmas, mas muitas fórmulas antigas não funcionam mais. Por exemplo, na época do Antimidia mal existia a internet, mal havia os blogs, isso só foi chegando nos anos 2000, e hoje em dia com as dezenas de redes sociais e as informações instantâneas fica difícil encontrar quem apoie uma publicação impressa de tiragem limitada como o fanzine. E não culpo, a pessoa tem que investir no que dá retorno pra ela pra não quebrar, não por heroísmo. Não pretendo parar de fazer zine, pois faço por amor, e acredito que esse seja mesmo o lance dos fanzines, mas desencanei por hora de fazer como jornal, apoiado em anúncios. Vou fazer só por realização pessoal. Não posso mais ficar tirando grana do bolso pra isso. Não posso e não quero. E isso foi o que me levou também a encerrar por definitivo a Teenager In a Box. Até tentei começar um selo novo após seu fim, mas vi que não tinha condições. Ou eu me focava em meus trabalhos, em minhas bandas, em meus livros, ou não ia fazer nem uma coisa nem outra, pois ambas as atividades exigem dedicação total.

Você falou em redes sociais, recentemente você excluiu seu profile pessoal no Facebook, teve algum motivo especial?

Não nego que meu facebook pessoal era muito útil para divulgar meus trabalhos, minhas atividades, etc. Mas eu vivia muito preso ali, conversando o dia todo, postando músicas, respondendo coisas, e acabava todo perdido com meus projetos. Não que fosse ruim, se fosse não viciava, mas percebi que estava passando mais tempo ali, preso nas respostas e posts do que compondo, escrevendo ou até passeando, namorando, etc. Isso, somado ao monte de besteira que eu via na timeline e as intriguinhas de rede que davam no saco me fez excluir o profile sem pensar duas vezes. Hoje eu posto no twitter, mas mais como newsletter, nas páginas das minhas bandas e em meu wordpress. Em termos práticos, pra mencionar apenas um dos resultados positivos, o desapego do hábito cotidiano do facebook me fez escrever esse novo livro.

Muitas atividades, muito trabalho, muita produção, pra encerrar, fale como está o Nenê Altro hoje no dia a dia.

Hoje estou mais próximo do Nenê que eu era na época do Personal Choice, do Six First Hits, do Coração de Tróia. Todo mundo passa por dificuldades na vida e comigo não foi diferente, passei uns bons anos complicados aí, mas escolhi erguer a cabeça e lutar. E hoje estou me sentindo muito bem, cheio de planos, com vontade de fazer as coisas. Acho que no final é isso mesmo, a vida é feita das escolhas que fazemos, não das dificuldades ou sortes que aparecem em nossos caminhos. Mas seria injusto dizer que cheguei aqui sozinho, se não fosse o apoio incondicional de minha esposa Nicolle, talvez nem tivesse sobrevivido. Como disse na dedicatória do livro, ela é a que me faz sempre ver as possibilidades nas impossibilidades rsrsrs E o Dance of Days sempre esteve comigo também, isso me ajudou bastante.

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Links Relacionados:
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Dance of Dayshttp://www.danceofdays.com.br
Seek Terrorhttp://seekterror.bandcamp.com